Juventude e Democratização dos Meios de Comunicação

Juventude e Democratização dos Meios de Comunicação

Escrito por: Vinícius Saldanha dirigente do Sindicato dos Psic Publicado em: 30/06/2014 Publicado em: 30/06/2014

De fato, as ideias que repercutem na grande mídia são as ideias da elite que a comanda. As expressões artísticas para as quais se voltam os holofotes são aquelas que agradam ideologicamente aos patrões, independente dos gêneros e vertentes dos quais tratamos. Porém, acontecimentos mais recentes colocam o rock em evidência.

Vejamos o recente e emblemático caso do festival João Rock, em Ribeirão Preto, no qual Falcão, do grupo O Rappa, incita 40 mil pessoas a ofenderem a primeira mulher eleita presidente no Brasil, com gritos de "Ei, Dilma, vai tomar no..." ? atitude tão baixa quanto o nível de dificuldade em propor em qualquer show de rock gritos hostis contra alguma autoridade, ainda mais em uma plateia repleta de herdeiros, donos do mundo do agronegócio.

Mas o caso é emblemático se observamos que quem repercutiu os gritos foi o canal Multishow, o mesmo que, em 2010, às vésperas da campanha eleitoral (no ponto em que nos encontramos agora - grifa-se), interrompeu a exibição do show do Rage Against The Machine no festival SWU, quando o guitarrista Tom Morello colocou um boné do MST ? antes disso, o vocalista Zack de La Rocha já havia dedicado uma música em homenagem ao movimento, que inclusive marcava presença no show devido à disponibilização, por parte da banda, de mais de mil ingressos para os militantes (o livro Guerreiros do Palco conta a trajetória de militância socialista da banda).

Na sequência, o vocalista convidou o público de 70 mil pessoas, de punhos cerrados, a celebrar o hino da Internacional Socialista. Era muito para a Rede Globo, que alegou problemas técnicos para interromper a transmissão do show. A grande mídia também não repercutiu, quando, dias após o show, Tom Morello declarou no Twitter apoio à eleição de Dilma, dizendo que considerava a candidata a mais identificada com as causas dos mais pobres. A grande mídia repercute, sim, quando qualquer famoso, seja brasileiro ou estrangeiro, fala mal do Brasil e, em especial, do "atual governo" (frisa-se, pois a grande mídia não propaga críticas a todos os governos, mas especificamente aos governos trabalhistas). Da mesma forma agem os também roqueiros Lobão e Roger, da banda Ultraje a Rigor, dentre outros tantos, se considerarmos outras vertentes.

A grande mídia, com seus tentáculos, que abrangem também gravadoras, empresários e produtoras, escolhe a dedo seus artistas. É o ?grita com o meu grito?, o ?canta com o meu canto?, sendo assim ditado o ritmo e o tom. Importante salientar: esse texto vai pra muito além de gostos musicais, pois o que está em discussão é a capacidade da grande mídia em capturar culturas, especialmente as ligadas à juventude, para seu projeto político, moldando-as de acordo com seus interesses (nunca é demais lembrar que ela tem lado, ainda que seja de amplo conhecimento dos militantes, pois esse lado ainda é desconhecido por boa parte da população). Captura os jovens, porque estes detêm consigo imenso poder de transformação da sociedade, desta sociedade desigual, monopolizada, desta sociedade da qual meia dúzia de famílias se aproveitou para constituir seus impérios. Para quem chegou agora à discussão, sim, a maior parte da informação veiculada em mídia impressa, rádio e TV é controlada por um número restrito de pessoas.

Ao se controlar a informação e a economia, oferta-se apenas o entretenimento que lhe convém, motivo pelo qual não se encontra diversidade de expressão na grande mídia, ao contrário do que se encontra na Internet ? bendito seja o Marco Civil!. Enquadra-se, então, o jovem em uma rebeldia seletiva ou, aparentemente, falando de si mesmo, como cantava Roger¹ (um dos ícones do anti-petismo que destila seu ódio via Twitter, virando notícia nos grandes portais), em uma rebeldia sem causa. Além disso, a mídia também cuida de promover a transformação de jovens em rebeldes com causas que não são suas.

O espaço dado aos diversos segmentos da sociedade na mídia é restrito, e com os jovens não é diferente. É restrito porque não é democrático. Não é democrático porque este espaço não é controlado pelo povo. É um espaço comumente utilizado para massificar a ignorância: só essa mídia pra dar credibilidade ao livro de Lobão intitulado Manifesto do Nada na Terra do Nunca", onde o capítulo "Vamos Assassinar a Presidenta da República?" dá o tom da discussão. É um espaço para massificar a aversão à política e a ?tudo-que-está-aí?. Soma-se a isso o imperialismo cultural, que nos vende, pelos mesmos meios de comunicação, a ideia de que tudo que vem de fora é bom e temos, assim, o coro de ?O Brasil é uma m****!?. Apesar dos avanços, após uma década de governo democrático-popular, o mencionado contexto midiático dificulta o debate de ideias e o protagonismo da juventude tal como desejamos. Não existe democracia plena sem a democratização dos meios de comunicação ? essa é uma lição que temos aprendido na nossa jovem democracia.

Em tempo: O atual momento nos leva ao necessário enfrentamento desse monopólio que persiste, apesar da Constituição de 1988 apresentar diretrizes que proíbem o oligopólio e o monopólio dos meios de comunicações. Vale lembrar que o que está em questão não é a censura da imprensa que existe até então, mas sim a criação de mecanismos que garantam pluralidade na liberdade de se expressar, ou seja, que deem voz aos outros segmentos, às comunidades, para que estes se apropriem deste espaço público.

Há uma proposta por parte da sociedade civil em forma de Projeto de Lei de Iniciativa Popular, apoiada por entidades da sociedade civil, movimentos sociais e movimentos sindicais, para assegurar e regulamentar o que diz a Constituição sobre os meios de comunicação no Brasil, com a necessidade de atingir a marca de 1 milhão e trezentas mil assinaturas para colocar o projeto em debate no Congresso Nacional. Para saber mais sobre o Projeto acesse http://www.paraexpressaraliberdade.org.br/index.php/2013-04-30-15-58-11/.

¹Rebelde Sem Causa é uma faixa do álbum Nós Vamos Invadir sua Praia, lançado em 1985 pelo grupo Ultraje a Rigor. 




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